Uma daquelas dores

Um dos piores dias da minha vida aconteceu a cerca de 3 anos. Era uma quinta-feira, e o dia tinha começado quase normal se é que se pode dizer. Lembro-me que eu e o Gonçalo estávamos chateados por uma razão que acho que nem me lembro bem. Ele naquele dia ia fazer um TAC, a algum tempo que se queixava com dores de cabeça, tonturas e vómitos.

Eu como estava chateada com ele mal falamos, e o dia passou pode-se dizer razoável. Quando ele me mandou sms a dizer que o TAC tinha acusado algo na altura fiquei um pouco preocupada. Admito que talvez não me tenha preocupado muito, mas o suficiente para o “desculpar” naquele momento. Íamos falando aos poucos pois ele tinha ido para o hospital de Torres Novas fazer uns exames (dizia-me) ele.

Devo ter adormecido nem sei ao certo, quando acordei vi que não tinha nenhuma sms dele. Estranhei e mandei uma sms, mas estava desligado, tentei ligar por diversas vezes mas nada. Sentia-me de mãos e pés atados, pois não conseguia falar com ele e não tinha o numero de ninguém de casa dele. Sentia-me lembro, inquieta, como se algo estivesse mal.

Não consegui ir a escola, passei a manha toda num rodopio, como se nada me fizesse parar. A meio da manha recebo uma sms a dizer que o Gonçalo está internado em Santa Maria a ser operado a um tumor cerebral.

Não sei bem que aconteceu, como se um balde me tivesse caído em cima. Não sentia. Não via. Não me lembro se chorei ou não no momento. Mas lembro-me que chorei muito, nesse dia e nos dias e nos que sucederam a operação. Um medo enorme, um frio que me acompanhava para todo o lado. Sentia-me presa, sentia-me perdida. Na escola pessoas que me conheciam fazia anos nunca me tinha visto chorar e naquele dia viram. Tentei por tudo ligar para a mãe dele saber como ele estava. Sábado arranquei para o hospital de santa Maria. Tinha de vê-lo, queria vê-lo pedir-lhe desculpa. Sentia como se a culpa fosse minha por estar chateada com ele. E se lhe tivesse acontecido algo? Como iria eu ficar.

Estava lá a família dele em peso, senti-me intimidada. As visitas eram restritas. Duas pessoas. A mãe claro, e outra. Mas quem? Estava lá a mãe, a irmã, o cunhado e o irmão de Espanha. Que direito tinha eu de ir vê-lo? Não sei como tudo se resolveu, como tudo ficou mas passamos todos. Corri pelos corredores de Santa Maria. E quando o pude ver senti um alívio tão grande no coração. Só queria abraça-lo e beija-lo. Ele estava tão fraco. Queria chorar mas tinha de ser forte. Não por mim mas por ele essencialmente.

A visita foi curta nesse dia. Domingo não pude ir vê-lo. Tinha muitas visitas e a hora de visita era só de meia hora. Ele ainda estava no pós-operatório. Na segunda fui vê-lo e todos os dias que ele estava internado. Saia das aulas a correr para lá. Cada dia demorava séculos a passar quando chegava a hora de sair corria literalmente para o hospital para estar com ele.

Foi uma fase complicada, onde sofria muito em silêncio porque não queria que ele visse. É por isso, por aqueles terríveis dias que me fez perceber o quanto eu o amava e precisava dele. Sempre e para sempre.

 

 

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Uma resposta a Uma daquelas dores

  1. soraia diz:

    olaaa manaEu lembro-me disso…Mas graças a deus tudo passou

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